Por Altamir Pinheiro

Segundo dados do começo do ano de 2020 da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), 92% dos municípios não possuem cinemas, outro dado afirma que em 400 cidades do Brasil entre 50 a 100 mil habitantes também não possuem salas de projeções cinematográficas comercialmente falando. Tudo isso concentra cerca de 30 milhões de pessoas. A título de comparação seria o equivalente à população do Chile e Portugal juntas (18 e 10 milhões de habitantes respectivamente), superando a população da Austrália (25 milhões de habitantes). O mercado brasileiro conta presentemente (ano de 2020), com 3.500 salas (centralizadas nas metrópoles), o que representa um número de 60 mil habitantes por sala de exibição. O índice brasileiro é inferior ao dos Estados Unidos, França, Austrália, Espanha, Alemanha, Portugal, México, Rússia, China, Japão, Argentina, Colômbia e Chile. Por exemplo, para alcançar o índice francês seriam necessárias 20 mil novas salas. Para igualar ao índice mexicano seria necessário a construção de 10 mil salas, ao passo que para equiparar o índice argentino seriam necessárias 2 mil inaugurações de novas salas.
Prendendo-se exclusivamente à capital de Pernambuco, Recife, relatamos aqui o que nos informam os historiadores do cinema pernambucano, André Santa Rosa, Mikhaela Araújo e Samantha Oliveira, quando nos dizem que a cidade do Recife sempre foi polo cultural e abriga diversas formas de expressão de arte. Não obstante, a arte do cinema ganhou espaço em meados de 1920, quando produções regionais caíram no gosto do público. Com o passar do tempo, o número de cinemas foi aumentando e chegou a aproximadamente 55 unidades. Quem não se lembra da “loucura” do público que assistiu aos filmes Spaghetti western, Faroeste espaguete ou Faroeste Macarrônico estrelados pelos ídolos Franco Nero (Django) e Giuliano Gemma (Ringo) no final da década de 1970. Tubarão (1975), Apocalypse Now (1979) e as famosas pornochanchadas, entre elas, o fenômeno de público A Dama do Lotação em cinemas como o Moderno ou Veneza da capital. Todas essas películas ora citadas e mais outras também foram sucesso de público nos cinemas Glória, Veneza, Eldorado e no Cine Theatro Jardim da cidade de Garanhuns(PE).
Passa-se o tempo e com a mudança de hábitos da classe média e da sociedade em geral, que se distanciaram do centro, além do advento da televisão, os cinemas do centro do Recife começaram a entrar em decadência. A qualidade da programação foi caindo, e a pornochanchada invadiu as telas. Esses cinemas começaram a ser esvaziados no mesmo período em que a vida pública na cidade começou a mudar. Além disso, os cinemas eram controlados por empresas, que em certo momento, decidiram vendê-los, fenômeno que aconteceu com muita velocidade. Depois desse boom de vendas e fechamentos de cinemas, sobraram apenas três: o São Luiz, o Veneza e o Moderno, todos localizados no centro. Um dos únicos que ainda sobrevivem é o famoso e tradicional Cinema São Luiz. Quanto à cidade de Garanhuns, só resta mesmo o Cine Eldorado.
Debruçando-me somente sobre uma área territorial onde este escriba se esconde há bastante tempo, não tem como não sentir saudades de doces lembranças que hoje transformo em matéria-prima para um novo acalanto ou conforto ao me lembrar de monumentais prédios feitos de tijolo, pedra e cal como aquele de nome pomposo que era o Cine Real da cidade de Cacimbinhas(AL), como também o do cinema Rio Branco da cidade pernambucana de Arcoverde(fundado em 1917), Cine Theatro Jardim de Garanhuns, Cine Brasília de Bom Conselho, Cine Teatro Guarany da cidade de Triunfo(PE) - Que é uma elegância e perfume francês no ar -, Cine Teatro Apollo de Palmares(PE) – o mais antigo do interior de Pernambuco - , Cine Palácio da cidade de Palmeira dos Índios(AL), Cines Moderno, Trianon, Veneza e São Luiz de Recife. Portanto, casas tradicionais como essas que se alimentavam da arte cinematográfica embalaram meus sonhos e de minha geração inteira por esse Pernambuco, Nordeste e Brasil afora.
Dos antigos cinemas interioranos sobraram apenas detalhes soltos e traços vagos, resquícios de um aglomerado de pessoas em que assistir às fitas de faroeste ou de Sansão, Hércules e Maciste era ao mesmo tempo um entretenimento e por que não dizer, um cerimonioso ritual... A história desses lugares hoje se esconde embaixo de novas fachadas ou por trás de portas que não se abrem mais. É uma pena que essas portas não mais se escancarem para as disputadas matinês de outrora que nos faz viajar no tempo e se alimentar dessa saudosa relembrança, costumeiramente aos domingos. Mas, tudo isso vem um certo conformismo com essa tal teoria da evolução que sofrem suas devidas alterações pela ação do tempo que é implacável. Fazer o quê?!?!?! E por falar em matinês aos domingos, vem a nossa memória a canção bem aprimorada do poeta: Eu me lembro com saudade das Jovens tardes de domingo, Tantas alegrias, Velhos tempos, Belos dias...
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